Os 10 Principais Riscos Globais para 2026 – e Como Podem Afetar o Brasil
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2026 será um período de grande incerteza geopolítica, segundo relatório da consultoria de riscos Eurasia. A análise não poderia ser mais acertada em um ano que começou com a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos. O argumento de Trump? Que o mandatário responda por crimes contra o país, entre eles o narcoterrorismo.
Os analistas analisam que o governo Trump está revivendo e reinterpretando a lógica da Doutrina Monroe em seu esforço para afirmar poder sobre as Américas. Enquanto a doutrina do século 19 alertava potências externas contra a interferência nas Américas, a versão de Trump amplia esse conceito, como a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro demonstrou.
Basta lembrar os conflitos protagonizados por Trump em 2025 que reafirmam essa tese: ameaças de ação militar na Colômbia e no México; sanções contra o presidente da Colômbia e Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal; pressão sobre o Panamá em relação à gestão do canal; novas sanções à Nicarágua e restrições mais duras a Cuba; elevação do relacionamento com Nayib Bukele, de El Salvador, em troca de cooperação em deportações; um pacote de resgate de US$ 20 bilhões para a Argentina para impulsionar as perspectivas políticas do presidente Javier Milei; e o perdão a um ex-presidente de Honduras condenado por tráfico de drogas por um tribunal dos EUA.
Contudo, esses e outros riscos para o ano terão um impacto moderado sobre o Brasil. Alguns podem até mesmo beneficiar o país no curto prazo, conclui a Eurasia. Ainda assim, as eleições presidenciais este ano serão altamente competitivas e decisivas para o rumo político do país, e os riscos globais têm potencial para inclinar a balança em uma direção ou outra.
Veja abaixo os principais riscos para o ano, segundo o relatório da Eurasia, e como cada um afeta o Brasil:
Risco 1: Revolução política nos EUA
Donald Trump tenta atualmente desmontar sistematicamente os freios e contrapesos ao seu poder, capturar a máquina do governo e usá-la como arma contra seus inimigos. O presidente americano vê a principal ameaça a ele e a seus aliados como doméstica, não externa, e acredita ter um mandato para a retaliação. Seu governo enxerga esse projeto não como um ataque à democracia, mas como sua restauração: uma depuração necessária de um sistema político capturado por um núcleo de poder profundamente corrupto, que já havia instrumentalizado o governo contra eles. Esse desmonte de Trump traz riscos econômicos e políticos de cauda.
Do ponto de vista econômico, o segundo mandato de Trump mostrou-se amplamente benigno ao Brasil ao longo de 2025: o crescimento dos EUA permaneceu resiliente, enquanto o dólar enfraqueceu, facilitando a desinflação por aqui. A questão para 2026 é se esse quadro se manterá ou se a crescente incerteza política nos EUA gerará efeitos negativos, especialmente se dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal americana desencadearem movimentos de aversão ao risco.
O Brasil segue estruturalmente vulnerável a choques externos na ausência de uma situação fiscal mais robusta. Isso o deixa exposto a mudanças abruptas no apetite global por risco, com espaço limitado de política econômica para amortecer choques. A combinação de políticas dos EUA — expansão fiscal, restrições comerciais e pressão sobre o BC americano — aumenta o risco de que o ambiente favorável às economias emergentes, como o Brasil, não se sustente.
Risco 2: Superpoderosos
As tecnologias que definem a economia do século 21 funcionam à base de elétrons: veículos elétricos (EVs), drones, robôs, manufatura avançada, redes inteligentes, armazenamento em baterias — e, sim, a inteligência artificial. Todos esses sistemas compartilham uma base comum: a chamada “pilha elétrica” (baterias, motores, eletrônica de potência e computação embarcada). Quem domina essa pilha consegue construir praticamente tudo o que a economia moderna exige. Quem a cede passa a comprar o futuro de outra pessoa.
A China dominou essa base. Os Estados Unidos estão abrindo mão dela. Em 2026, será impossível ignorar essa divergência.
Risco 3: A Doutrina Dunroe
Trump busca não apenas conter China, Rússia e Irã nas Américas, mas afirmar ativamente a primazia americana por meio de uma combinação de pressão militar, coerção econômica, construção seletiva de alianças e acertos de contas pessoais. Em 2026, essa postura aumentará o risco de excessos de política externa e de consequências não intencionais.
Essa política afetará a América Latina, mas a importância estratégica do Brasil oferece uma proteção significativa. A posse brasileira de minerais críticos essenciais para a manufatura de tecnologias avançadas, combinada com sua escala econômica e influência regional, posiciona o país de forma distinta de Estados latino-americanos menores, sujeitos a pressões mais diretas.
A decisão dos EUA de impor tarifas punitivas de 40% sobre importações brasileiras em 2025 trouxe uma lição reveladora: a pressão comercial americana fortaleceu, em vez de enfraquecer, a posição política doméstica de Lula. Esse resultado foi observado dentro do governo Trump e contribuiu para uma retirada parcial das tarifas.
O recuo dos EUA também foi motivado pelas ricas reservas brasileiras de minerais críticos e terras raras. O desejo da Casa Branca de normalizar as relações com o Brasil decorre da necessidade de reduzir a dependência americana de minerais críticos chineses.
A incursão militar dos EUA na Venezuela tensionará a relação entre Brasil e Washington e provavelmente atrasará um acordo bilateral sobre comércio e minerais críticos — mas não deve inviabilizar sua eventual conclusão.
Ainda assim, o governo Trump prefere vitórias eleitorais da direita na América Latina, e as eleições brasileiras de 2026 serão acompanhadas de perto. O risco mais significativo envolve possíveis reações dos EUA a decisões do Supremo Tribunal Federal brasileiro percebidas como politicamente enviesadas contra candidatos de direita. Caso o TSE atue de forma agressiva contra candidatos conservadores — seja por uso de IA, seja por tentativas mais amplas da direita de deslegitimar os tribunais —, isso pode estimular apoio americano a candidatos de oposição. Por outro lado, qualquer resposta vista como interferência excessiva pode ter o efeito não intencional de beneficiar a candidatura de reeleição de Lula.
Risco 4: Europa sob cerco
O centro político da Europa vem sendo esvaziado ao longo de uma década. França, Alemanha e Reino Unido começam 2026 com governos fracos e impopulares, sitiados pela direita populista, pela esquerda populista e por uma administração americana — além de redes sociais alinhadas ao Estado — que torcem abertamente por sua queda. Nenhum dos três enfrenta eleições gerais previstas no curto prazo. Ainda assim, todos correm o risco, na melhor das hipóteses, de paralisia e, na pior, de desestabilização — e ao menos um líder pode cair.
As consequências não ficarão restritas à região: a capacidade da Europa de enfrentar seu mal-estar econômico, preencher o vácuo de segurança deixado pela retração dos Estados Unidos e manter a Ucrânia na luta será prejudicada.
Contudo, o impacto direto no Brasil será limitado no curto prazo, especialmente se o acordo União Europeia–Mercosul for finalizado antes que as crises políticas europeias se aprofundem. Ainda assim, a instabilidade europeia complica o engajamento multilateral do Brasil em temas como clima, comércio e direitos humanos. Um aumento do protecionismo europeu também pode ameaçar a implementação do acordo UE–Mercosul mesmo após sua assinatura.
Risco 5: A segunda guerra da Rússia
Os combates na Ucrânia tendem a se arrastar ao longo de 2026, com episódios de diplomacia intermediada por Donald Trump e sem um avanço imediato decisivo para nenhum dos lados. A Rússia deve atacar para ampliar seus ganhos territoriais dentro da Ucrânia e continuar bombardeios contra centros civis; a Ucrânia, por sua vez, intensificará ataques mais profundos dentro do território russo. Ainda assim, o cenário-base é menos estável do que em 2025. À medida que a guerra entra em seu quarto ano, a posição da Ucrânia se deteriora e a pressão dos Estados Unidos aumenta. Os riscos extremos crescem nas duas pontas: uma Ucrânia enfraquecida, forçada a capitular, ou uma Ucrânia mais desesperada, assumindo apostas maiores que provoquem nova escalada russa contra Kiev e seus apoiadores.
Mas, independentemente do que aconteça no campo de batalha, o maior perigo deste ano está em outro lugar. A Rússia deve intensificar operações na “zona cinzenta” contra a Otan, que vão desde sabotagem de infraestrutura e incursões no espaço aéreo até interferência em eleições. E a Otan, após anos absorvendo ataques, deve reagir de forma mais ativa pela primeira vez. Essa combinação eleva a probabilidade de confrontos mais frequentes e mais perigosos no coração da Europa.
A escalada do conflito na zona cinzenta pode afetar o Brasil caso interrompa fluxos de commodities. Vulnerabilidades específicas incluem exportações russas de fertilizantes (críticos para a agricultura) e mercados de energia, onde interrupções na oferta russa elevariam preços globais e a inflação de importação.
Risco 6: Capitalismo de Estado americano
Em 2025, a administração de Donald Trump foi a mais intervencionista do ponto de vista econômico desde o plano para resgatar a economia da recessão de 1929. Em 2026, esse movimento deve se expandir e se consolidar ainda mais, remodelando a relação entre os setores público e privado nos Estados Unidos.
Trump está longe de ser o primeiro presidente a adotar uma política industrial. O governo do ex-presidente Joe Biden fez isso por meio do Inflation Reduction Act e do CHIPS Act, ainda que com um princípio limitador: apoiar setores estratégicos e deixar os não estratégicos a cargo do mercado. Há um argumento econômico e geopolítico para ir além em uma era de competição entre grandes potências. Mas Trump não demonstrou nenhum princípio do tipo.
O capitalismo de Estado de Trump é pessoal e transacional. Empresas que se alinham à agenda do presidente recebem tratamento mais favorável do governo. Embora a maioria das companhias americanas siga operando normalmente, um número crescente daquelas que não se alinham corre o risco de ficar em desvantagem. Cada vez mais, o sucesso em disputas de fusões e aquisições, aprovações regulatórias, isenções tarifárias ou acesso a negócios exige não apenas alinhamento com a agenda, mas proximidade com o círculo íntimo do presidente. Entrar nesse jogo é economicamente racional; resistir é caro.
Esse fenômeno pode gerar efeitos de segunda ordem sobre a forma como empresas brasileiras operam nos EUA, que tendem a enfrentar um campo de jogo mais desigual em relação às concorrentes americanas.
Risco 7: A armadilha deflacionária da China
A espiral deflacionária da China vai se aprofundar em 2026, e Pequim não fará nada para detê-la. Com o 21º Congresso do Partido marcado para 2027, Xi Jinping dará prioridade ao controle político e à supremacia tecnológica, em detrimento de estímulos ao consumo e de reformas estruturais que poderiam romper o ciclo. Pequim tem meios para evitar uma crise, mas o padrão de vida vai se deteriorar, os efeitos se espalharão para fora do país, e a segunda maior economia do mundo continuará presa a uma armadilha criada por ela mesma.
Os preços dos imóveis na China caem há quatro anos e meio — uma destruição de riqueza das famílias comparável ao colapso dos EUA em 2008, com a diferença de que ainda está se acelerando. A confiança do consumidor, o investimento e a demanda doméstica despencaram junto. Pequim apostou alto que a manufatura de alta tecnologia preencheria o vazio deixado pelo setor imobiliário. Em vez disso, o investimento dirigido pelo Estado gerou excesso de capacidade, e a fraqueza da demanda interna significa que não há compradores suficientes para absorvê-la.
O resultado? Empresas chinesas demais disputando uma demanda pequena demais, cortando preços para sobreviver. As margens entram em colapso, forçando até empresas bem administradas a reduzir salários e empregos para se manterem à tona. Os trabalhadores gastam menos. A demanda enfraquece ainda mais, e as empresas voltam a cortar preços. Enquanto isso, as dívidas ficam cada vez mais difíceis de honrar. Bancos e governos locais mantêm empresas zumbis vivas — renovando empréstimos, protegendo campeãs locais. A espiral de dívida e deflação se retroalimenta.
As tarifas impostas por Trump no ano passado agravaram a situação, ao fechar um mercado de exportação crucial e colocar as empresas chinesas diante de uma escolha sombria: cortar preços para encontrar compradores fora dos Estados Unidos ou redirecionar mercadorias por países terceiros para chegar ao mercado americano de qualquer forma. Qualquer um dos caminhos aperta ainda mais as margens. Hoje, mais de um quarto das empresas chinesas listadas em bolsa opera no prejuízo — a maior proporção em 25 anos.
Risco 8: A IA devora seus usuários
Sob pressão para gerar receita e sem amarras regulatórias claras, várias das principais empresas de inteligência artificial devem adotar, em 2026, modelos de negócio que ameaçam a estabilidade social e política — seguindo o roteiro destrutivo das redes sociais, só que de forma mais rápida e em escala ainda maior.
A Eurasia continua otimista em relação ao potencial revolucionário da IA. Mas a tecnologia não consegue corresponder, no curto prazo, às expectativas dos investidores. Mesmo após centenas de bilhões de dólares em investimentos, os modelos mais avançados ainda “alucinam”. Suas capacidades são irregulares: impressionantes em algumas tarefas, pouco confiáveis em outras — muitas vezes de forma imprevisível. Essa inconsistência dificulta o uso em aplicações críticas, nas quais erros têm alto custo.
A adoção pelas empresas tem sido desigual: segundo o Census Bureau, apenas cerca de 10% das companhias americanas usam IA para produzir bens e serviços. Muitas relatam ganhos relevantes de produtividade, mas pesquisas indicam que a maioria ainda não percebeu impacto significativo nos resultados financeiros. Ganhos reais de produtividade virão com a ampla difusão da tecnologia pela economia, mas isso leva tempo. Ainda assim, os mercados já precificaram uma revolução — não uma evolução.
Risco 9: Acordo zumbi
O comércio norte-americano ficará em suspenso em 2026. O Acordo Estados Unidos–México–Canadá (USMCA) não será prorrogado, atualizado nem encerrado. Ele seguirá cambaleando como um zumbi, mantendo empresas e governos na incerteza enquanto o presidente Donald Trump continua negociando com os dois maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos.
O acordo passa neste ano por sua revisão obrigatória, quando as partes podem estendê-lo por mais 16 anos. Mas Trump quer evitar as amarras de um novo acordo trilateral para continuar usando a alavancagem bilateral a fim de arrancar concessões econômicas e políticas de ambos os países. O Canadá já abandonou seu imposto sobre serviços digitais. O México está impondo tarifas à China. Ambos estão reprimindo os fluxos de fentanil. Washington não cedeu nada em troca. Por que se prender a um acordo quando a abordagem atual continua rendendo resultados ao presidente dos EUA? Nem Canadá nem México podem se dar ao luxo de sair da mesa. Os Estados Unidos são destino de cerca de 75% das exportações canadenses e 80% das exportações mexicanas. Trump detém a maioria das cartas — e sabe disso.
Para o Brasil, esse cenário oferece oportunidades moderadamente positivas, à medida que México e Canadá buscam relações alternativas. As negociações em curso do Mercosul com ambos os países refletem essa dinâmica, com potencial de ampliar o acesso do Brasil a mercados conforme a confiança no acordo USMCA se deteriora.
Risco 10: A arma da água
A água está se tornando o recurso compartilhado mais disputado do planeta. Em 2026, as pressões de demanda vão se intensificar, o vácuo de governança se aprofundará, e a água se transformará em uma arma carregada em algumas das rivalidades mais perigosas do mundo — além de um instrumento para atores não estatais explorarem a fragilidade dos Estados. O que antes era uma crise humanitária está se tornando uma ameaça à segurança nacional.
Os ingredientes vêm se acumulando há anos: cerca de metade da humanidade vive sob estresse hídrico por pelo menos um mês ao ano; 1,8 bilhão de pessoas enfrentam escassez absoluta. O crescimento populacional e a rápida urbanização pressionam bacias já sobreexploradas — megacidades de Chennai à Cidade do México e Teerã já enfrentaram crises de “Dia Zero” ou chegaram muito perto disso. O deslocamento populacional impulsionado pela água está acelerando. A disparada da demanda por energia leva países a construir hidrelétricas justamente quando a água de que dependem se torna cada vez mais escassa. E as mudanças climáticas apertam ainda mais o cerco: as geleiras do Himalaia estão derretendo mais rápido, as monções se tornam erráticas e as secas se aprofundam no Sul da Ásia e no Sahel.
Em 2026, o Brasil enfrenta exposição direta limitada ao tema. A vulnerabilidade mais significativa está no potencial estresse hídrico no estado de São Paulo, onde restrições de oferta dependentes do regime de chuvas poderiam gerar disrupções econômicas e consequências políticas durante o ciclo eleitoral, possivelmente prejudicando a coalizão de centro-direita do governador Tarcísio de Freitas.
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